Hoje presidente, governador e prefeito podem ser reeleitos uma vez, por um mandato seguido, regra criada pela Emenda Constitucional 16, de 1997. Deputados e vereadores não têm limite. O fim da reeleição, com mandatos de cinco anos, já passou na CCJ do Senado em 2025, mas não foi votado em plenário. O modelo do Delegado Eleitoral propõe mandato único de oito anos para todos os cargos.

Como é hoje

A Constituição de 1988 proibia a reeleição imediata no Executivo. A Emenda Constitucional 16, promulgada em 4 de junho de 1997, mudou o art. 14, § 5º: o presidente, os governadores e os prefeitos "poderão ser reeleitos para um único período subsequente".

A emenda foi aprovada no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, que se reelegeu em 1998. A votação ficou marcada por denúncia de compra de votos: em maio de 1997, a Folha de S.Paulo publicou gravações em que os deputados Ronivon Santiago e João Maia (PFL-AC) diziam ter recebido R$ 200 mil para votar a favor. Os dois renunciaram, o caso foi arquivado pela Procuradoria-Geral da República e ninguém foi punido.

CargoMandatoReeleiçãoIdade mínima hoje
Presidente4 anosUma vez, seguida35 anos
Governador4 anosUma vez, seguida30 anos
Prefeito4 anosUma vez, seguida21 anos
Senador8 anosSem limite35 anos
Deputado federal, estadual ou distrital4 anosSem limite21 anos
Vereador4 anosSem limite18 anos

Fonte: Constituição Federal, arts. 14, 44, 46, 82 e seguintes.

Desde 1997, três presidentes se reelegeram: Fernando Henrique (1998), Lula (2006) e Dilma Rousseff (2014). Jair Bolsonaro foi o primeiro a tentar a reeleição e perder, em 2022. Em 2026, Lula, no terceiro mandato, disputa a reeleição: no primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro teve 47,04% dos votos válidos e Lula 45,15%, e os dois vão ao segundo turno em 25 de outubro.

No Legislativo, a recondução é a regra. Na eleição de 4 de outubro de 2026, 311 deputados federais foram reeleitos, 60,62% da Câmara, o maior percentual desde a redemocratização, segundo a própria Câmara.

A campanha permanente: o que a reeleição faz com o mandato

O argumento contra a reeleição é simples: quem pode ser reconduzido governa pensando na próxima eleição. Obras são programadas para o calendário eleitoral, decisões impopulares são adiadas para depois do pleito e a máquina pública trabalha a favor de quem está no cargo, que disputa a eleição sem sair dele.

O argumento a favor também é direto: a reeleição é uma forma de prestação de contas. O eleitor premia quem governou bem e pune quem governou mal. Quatro anos podem ser pouco para uma política pública amadurecer, e a possibilidade de um segundo mandato dá tempo para concluir projetos. Sem reeleição, o governante em fim de mandato não tem mais nada a perder diante do eleitor.

No Legislativo, a falta de limite produz carreiras longas. Defensores dizem que isso acumula experiência; críticos dizem que cria dependência das emendas parlamentares e de redes locais que tornam o mandato quase vitalício.

O que já foi proposto

  • PEC 182/2007, reforma política de 2015. Em 27 de maio de 2015, a Câmara aprovou em primeiro turno o fim da reeleição para presidente, governador e prefeito, por 452 a 19. No Senado, a proposta virou a PEC 113/2015; a parte da reeleição, desmembrada como PEC 113A/2015, passou pela CCJ em 2016, nunca foi votada em plenário e foi arquivada em 21 de dezembro de 2022, no fim da legislatura.
  • PEC 12/2022, no Senado. De autoria do senador Jorge Kajuru, com substitutivo do relator Marcelo Castro, foi aprovada na CCJ em 21 de maio de 2025. O texto acaba com a reeleição no Executivo, sem atingir quem já estava no cargo, fixa mandatos de cinco anos para todos os cargos, inclusive senadores, e unifica as eleições a partir de 2034. Segundo a página de tramitação, está pronta para o plenário desde 22 de maio de 2025, sem votação até a última atualização.
  • PEC 4/2026, no Senado. Apresentada em 2 de março de 2026 por Flávio Bolsonaro e outros 29 senadores, torna o presidente inelegível para o período seguinte. Estava aguardando despacho em junho de 2026.

O padrão se repete: o fim da reeleição tem apoio declarado amplo, mas nenhuma proposta chegou ao fim da tramitação. O tema das propostas que ficam paradas está em engavetamento de pautas.

No modelo do Delegado Eleitoral

O plano vai além das PECs em discussão em dois pontos: o mandato é mais longo e a regra vale também para quem legisla.

Regra de mandato (item 7.6 do plano): mandato de 8 anos, sem direito a reeleição, para todos os cargos eletivos: presidente da República, governador, prefeito, deputado federal, deputado estadual e vereador.

  • Sem Senado. O cargo de senador não aparece na lista porque o plano extingue o Senado (item 7.1). Veja extinção do Senado.
  • Idade mínima (item 7.6). 30 anos para vereador, deputado estadual, distrital e federal; 35 anos para presidente. As idades de hoje para o Legislativo, 18 e 21 anos, sobem a 30, o mesmo patamar exigido do Delegado Eleitoral Específico. O plano não fixa idade para governador e prefeito.
  • A razão (item 7.6 e vantagem 4, item 9.1). Remover "a campanha permanente pela própria recondução, em troca de um horizonte longo o bastante para políticas de maturação lenta". Sem reeleição, o mandato "volta a ser prazo de execução".

O plano não diz se quem terminou um mandato pode disputar outro cargo depois. A proposta completa está em Delegado Eleitoral: como funciona o modelo.

Objeções

Oito anos de um governo ruim

É a objeção mais forte. Sem reeleição, o eleitor perde a chance de tirar um mau governante no meio do caminho, e oito anos é o dobro do mandato atual. O plano responde com dois mecanismos. Primeiro, o impeachment do presidente, e de governador e prefeito nas suas esferas, passa à votação dos delegados (itens 7.5 e 7.9), sem depender do presidente da Câmara, como explica a página sobre impeachment. Segundo, a palavra final sobre as leis é dos delegados e não pode ser revista (itens 7.2 a 7.4): um governo ruim não consegue aprovar sozinho a própria agenda. Ainda assim, se o impeachment continuar exigindo crime de responsabilidade, ponto que o plano não detalha, um governo apenas medíocre ficaria os oito anos.

Sem reeleição, o governante não presta contas

Hoje a reeleição funciona como prêmio ou punição. No modelo, essa cobrança sai da urna de quatro em quatro anos e vai para o voto direto nas leis e no julgamento político. O plano aposta que uma massa informada vigiando o mandato inteiro (item 2) cobra mais do que uma eleição a cada quatro anos. É uma aposta, não um resultado medido.

Perde-se o bom parlamentar

Com a regra valendo para deputados e vereadores, quem faz um bom trabalho no Legislativo sai depois de oito anos. O plano aceita esse custo em troca do fim da campanha permanente. Outras críticas estão reunidas em críticas e objeções ao modelo.