Democracia líquida é um sistema em que cada pessoa escolhe, tema a tema, entre votar ela mesma ou delegar o voto a alguém de confiança, que pode repassá-lo adiante. A delegação pode ser desfeita a qualquer momento. Foi testada em partidos e plataformas online, e o problema mais citado é a concentração de votos em poucos superdelegados.

Como funciona

A ideia fica entre a democracia direta, em que todos votam em tudo, e a representativa, em que se escolhe um representante para um mandato inteiro. Na versão líquida, cada participante decide para cada assunto se vota pessoalmente ou se entrega o voto a outra pessoa.

Três regras definem o modelo, segundo a descrição mais usada na literatura (Blum e Zuber, Journal of Political Philosophy, 2016):

  • Escolha por tema: posso delegar meu voto de economia a uma pessoa e o de saúde a outra, e votar eu mesmo em educação.
  • Transitividade: quem recebe uma delegação pode repassá-la a um terceiro, formando cadeias.
  • Revogação a qualquer momento: se o delegado votar contra a minha vontade, retomo o voto na mesma hora, sem esperar eleição.

Quem recebe delegações vota com o próprio peso mais o peso de todos os votos que chegaram a ele pela cadeia. É aí que mora a principal promessa e o principal risco.

Onde foi testada

LiquidFeedback e o Partido Pirata alemão

O LiquidFeedback é um software livre para debater propostas e votar com delegação. O Partido Pirata alemão o adotou em maio de 2010 para a formação de posições internas, segundo o estudo de Kling e coautores, apresentado na conferência ICWSM de 2015. A base analisada vai de agosto de 2010 a novembro de 2013 e soma 13.836 usuários registrados e 14.964 delegações.

O partido viveu seu auge nesse período. Em setembro de 2011 entrou no parlamento de Berlim com 8,9% dos votos e 15 cadeiras, e em 2012 chegou também aos parlamentos do Sarre, de Schleswig-Holstein e da Renânia do Norte-Vestfália, segundo a Agência Federal de Educação Cívica da Alemanha (bpb). Depois disso ficou abaixo dos 5% em todas as eleições estaduais; na eleição federal teve 2,2% em 2013 e 0,4% em 2017 e 2021.

A queda do partido tem várias causas e não pode ser atribuída só ao software. Mas o estudo de Kling registra que, depois do congresso federal do partido em 2011, houve um debate interno sobre os superdelegados que pôs em dúvida o caráter democrático do sistema, e muitos usuários ficaram inativos.

Partido de la Red, na Argentina

Em Buenos Aires, o Partido de la Red foi criado por Santiago Siri, Pia Mancini e outros fundadores em torno da plataforma DemocracyOS. A promessa era simples: se eleitos, seus candidatos votariam na legislatura da cidade conforme a decisão dos usuários da plataforma. O partido teve 1,2% dos votos, sem eleger ninguém, segundo entrevista dos fundadores ao TechCrunch em 2015. Mancini apresentou a experiência numa palestra no TEDGlobal de 2014.

O caso argentino é uma variante: os eleitores votam online, mas quem vota formalmente no parlamento é um representante que se compromete a seguir o resultado. O compromisso depende da palavra do eleito, já que nada na lei o obriga.

Os problemas conhecidos

Superdelegados

Como as delegações se acumulam, algumas pessoas passam a votar por centenas. No LiquidFeedback do Partido Pirata, 38 participantes chegaram a receber mais de 100 delegações cada um, e a desigualdade na distribuição das delegações cresceu com o tempo, segundo Kling e coautores (2015). O mesmo estudo traz um contraponto honesto: na prática, os superdelegados tenderam a votar com a maioria e não usaram todo o seu poder para virar resultados.

O risco, porém, não depende de abuso efetivo. Um superdelegado é exatamente o tipo de alvo que o lobby procura: uma pessoa identificável que move muitos votos de uma vez.

Transparência contra privacidade

Para que eu saiba se meu delegado votou como eu queria, o voto dele precisa ser público. O LiquidFeedback registra votos de forma pública e verificável e por isso não serve para votação secreta, como explicam os próprios desenvolvedores em entrevista ao openDemocracy (2015). A tensão entre privacidade dos participantes e transparência das delegações é um dos dois problemas centrais apontados por Marco Deseriis (Partecipazione e Conflitto, 2022) na experiência alemã; o outro é a concentração de poder em poucos delegados.

Delegar nem sempre melhora a decisão

A promessa da democracia líquida é que quem entende mais de um tema receba os votos de quem entende menos. Um estudo de ciência da computação mostrou que essa promessa não é automática: regras de delegação baseadas só nas escolhas locais de cada pessoa não garantem resultado melhor que o voto direto de todos (Kahng, Mackenzie e Procaccia, AAAI 2018).

Participação que se esvazia

O sistema exige atenção contínua: acompanhar o que o delegado faz e revogar quando preciso. Na prática, o uso do LiquidFeedback no Partido Pirata oscilou com o calendário político e caiu depois da controvérsia sobre os superdelegados. Quem deixa de acompanhar mantém a delegação ativa, e o poder fica com quem continua presente.

RepresentativaLíquidaDireta
Quem vota cada leiRepresentantes eleitosCada um, ou seu delegadoTodos
Peso de cada votoIgual entre parlamentaresVaria com as delegações recebidasIgual
RevogaçãoSó na próxima eleiçãoA qualquer momentoNão se aplica
Risco típicoPoucos decisores, fáceis de capturarSuperdelegadosCusto e baixa informação

No modelo do Delegado Eleitoral

O nome engana, por isso vale ser direto: no modelo do Delegado Eleitoral ninguém delega voto a ninguém. O delegado é o próprio cidadão habilitado, que vota por si. O plano define a condição como uma "habilitação pessoal, temporária, renunciável e revalidável", obtida em prova pública (capítulo 3 do plano).

  • Um voto por pessoa. Não existe mecanismo de transferência. Cada voto fica vinculado a uma habilitação verificável, com delegado ativo, tema habilitado e ciclo vigente (item 5.1 do plano), como explica a página sobre a votação pelo gov.br.
  • O filtro é a prova, não a confiança. Na democracia líquida, quem decide um tema é quem recebeu confiança. No plano, é quem passou na prova daquele tema, com o mesmo corte de 60% (itens 3.2 e 4). Quando a lei toca vários temas, vota só quem é habilitado em todos (item 4.1). Os detalhes estão em habilitações temáticas.
  • Sem superdelegado possível. O colégio pode ter de 6,4 a 42,6 milhões de pessoas, cada uma com o mesmo peso (quadro de ordem de grandeza do item 8.3). Não há nó concentrador para o lobby procurar.
  • Vaga ociosa não fica parada. Quem desiste não escolhe sucessor: entra o próximo da fila de excedentes por nota (item 3.5). Quem falta em 3 blocos seguidos perde o título (item 5.5).

O que as duas ideias têm em comum é a votação por tema: tanto a democracia líquida quanto o plano reconhecem que ninguém precisa decidir sobre tudo. A diferença está em quem ganha o direito de decidir um tema e em quanto pesa cada voto.

Objeções

"Delegar a quem eu confio é mais democrático que exigir prova"

É um argumento forte. Na democracia líquida ninguém fica de fora: todo mundo vota ou escolhe quem vota. No plano, quem não passa na prova não vota, e o próprio documento admite que isso exige uma nova Constituição que restrinja o voto aos habilitados (item 7.8). A resposta do plano é que a prova é aberta a qualquer eleitor, com banco de questões público (item 3.7), cursos preparatórios dos TREs (item 3.8) e repetida a cada dois anos (item 3.6). A discussão sobre esse custo está em epistocracia e em críticas e objeções.

"Os superdelegados da experiência alemã votavam com a maioria"

Segundo o estudo citado, sim. Mas um desenho institucional não pode depender da boa conduta de quem concentra poder. O plano parte do argumento contrário: o colégio é imune à captura não porque as pessoas sejam mais virtuosas, mas porque cooptar milhões de decisores dispersos não cabe em nenhum orçamento (item 8.1).