Epistocracia é o sistema em que o direito de decidir, ou o peso de cada voto, depende do conhecimento de quem vota. A palavra vem do grego episteme, conhecimento, e foi cunhada pelo filósofo David Estlund. O defensor contemporâneo mais conhecido é Jason Brennan, autor de Against Democracy (2016). É o oposto do princípio "uma pessoa, um voto".

Origem do termo e a tese de Against Democracy

A ideia de que governar exige saber é antiga: Platão já defendia, na República, que os mais sábios deveriam governar. O termo moderno vem de David Estlund, que chamou de epistocracia "uma forma de oligarquia que envolve o governo de especialistas", segundo o verbete Democracy da Stanford Encyclopedia of Philosophy. Estlund cunhou a palavra para criticá-la.

Quem a defendeu abertamente foi Jason Brennan, em Against Democracy, publicado pela Princeton University Press em 2016. A tese tem três partes:

  • A democracia deve ser julgada pelos resultados que produz, não por um valor intrínseco.
  • Ninguém tem direito fundamental a uma parcela do poder político sobre os outros.
  • Participar de política tende a piorar as pessoas: deixa-as mais enviesadas e mais hostis a quem pensa diferente.

Brennan divide os cidadãos em três tipos. Os hobbits são indiferentes à política e pouco informados. Os hooligans são os torcedores fanáticos da política: têm opinião fixa e só buscam informação que a confirme. Os vulcanos raciocinam com base em evidência e representam com justiça o lado contrário, mas Brennan admite que ninguém é um vulcano perfeito. A conclusão dele é que a maioria do eleitorado é hobbit ou hooligan, e que vale a pena experimentar o governo dos mais informados.

Formas de epistocracia

Epistocracia não é um sistema único. As propostas mais discutidas são:

FormaComo funcionaQuem propôs
Voto pluralTodos votam, mas quem comprova mais instrução tem votos extrasJohn Stuart Mill, 1861; discutido por Brennan
Sufrágio restritoSó vota quem passa num exame de conhecimento políticoBrennan, entre as opções
Veto epistocráticoUm órgão de pessoas qualificadas pode vetar leis do parlamento eleitoBrennan, entre as opções

Mill e o voto plural

O caso histórico mais citado é o de John Stuart Mill, nas Considerations on Representative Government (1861), capítulo VIII. Mill queria o voto estendido a quase todos, mas considerava "inteiramente inadmissível" que votasse quem não soubesse ler, escrever e fazer as operações básicas de aritmética, e exigia que o Estado oferecesse esse ensino de graça ou a custo mínimo.

Além disso, propunha que os mais instruídos tivessem mais de um voto. Dois detalhes importam aqui. Mill rejeitava ligar o voto extra à renda, que chamava de critério "supremamente odioso". E considerava "absolutamente necessário" que o privilégio fosse aberto ao mais pobre da comunidade, por meio de exames voluntários aos quais qualquer pessoa pudesse se apresentar.

As críticas

Quem define o que é conhecimento

Toda epistocracia precisa de alguém que escreva a prova. Quem escreve a prova escolhe o eleitorado, e esse poder é exatamente o que a epistocracia promete tirar de mãos erradas. A pergunta "quem vigia os examinadores" não tem resposta simples.

A objeção demográfica

Formulada por Estlund, é a crítica mais conhecida. Qualquer critério de conhecimento tende a selecionar pessoas parecidas entre si em renda, escolaridade, região e cor, e os vieses desse grupo prejudicam sua capacidade de decidir pelo bem de todos. O verbete da Stanford registra o argumento. No Brasil, onde escolaridade e renda andam juntas, a objeção pesa ainda mais.

Legitimidade

Estlund argumenta também que a autoridade de um sistema político depende de ser justificável para todos os cidadãos razoáveis, e que nenhum critério de "quem sabe mais" é aceito por todos. A democracia seria o melhor sistema dentre os aceitáveis, mesmo sem ser o que decide melhor. Outros autores, como Hélène Landemore, defendem que grupos diversos decidem melhor do que grupos de especialistas parecidos entre si.

O histórico

Testes de alfabetização já foram usados para excluir. O resenhista Nathan J. Robinson criticou Brennan por não tratar do risco de a epistocracia servir para restaurar hierarquias como as das leis Jim Crow, que usavam testes de alfabetização para impedir negros de votar no sul dos Estados Unidos. No Brasil, a exigência de saber ler e escrever, criada em 1881 e mantida pela Constituição de 1891, manteve os analfabetos fora das urnas até 1985 (veja voto censitário).

No modelo do Delegado Eleitoral

Honestamente: o Delegado Eleitoral é uma epistocracia? Sim, no critério de acesso. Só vota quem passa numa prova sobre o funcionamento do Estado (item 2 do plano), e o item 7.8 diz que "apenas os Delegados Eleitorais votam, tanto nos candidatos quanto nas leis". É uma forma de sufrágio restrito por conhecimento, e o plano não esconde que o voto deixa de ser universal.

Onde ele difere das versões clássicas:

  • Prova aberta. É pública e aberta a qualquer eleitor (item 3), e os TREs oferecem cursos preparatórios online e presenciais (item 3.8). Lembra a exigência de Mill de exames voluntários abertos a qualquer pessoa. O plano não trata de taxa de inscrição.
  • Banco público, controlado pelos delegados. Só caem questões de um banco aberto à consulta, e só os próprios delegados votam para incluir ou remover questões. Nenhuma autoridade altera o banco sozinha (item 3.7). É a resposta do plano a "quem escreve a prova".
  • Rotatividade bienal. O título expira a cada 2 anos e a prova é refeita, para que ninguém vire "casta vitalícia" (item 3.6).
  • Teto de 20%. O colégio nunca passa de 20% da população, e quem não atinge 60% de acertos não entra, mesmo que a cota fique vazia (item 3.4).
  • Escopo raso. A prova geral cobra quem faz o quê no Estado, não teoria econômica nem opinião (item 3.3).
  • Três esferas. A mesma habilitação vale para leis federais, estaduais e municipais (item 7.9).

Outra diferença de fundo: Brennan justifica a epistocracia pela qualidade das decisões. O plano usa sobretudo um argumento aritmético. Um colégio de milhões de delegados anônimos e renovados é caro demais para ser capturado por lobby ou crime organizado (item 8). Os detalhes estão em o que é o Delegado Eleitoral.

O que o plano responde a cada crítica

CríticaResposta do planoO que fica em aberto
Quem define o conhecimentoBanco público, alterável só por voto dos delegados (3.7)Quem redige o banco inicial; o plano não detalha
Viés demográficoEscopo raso (3.3), cursos públicos dos TREs e campanhas do TSE (3.8)Nenhum mecanismo corrige a composição do colégio
LegitimidadeAcesso aberto e renovação a cada 2 anos (3, 3.6)Quem não passa fica sem voto, inclusive para presidente (7.8)
Histórico de exclusãoCritério único e público, sem exigência de rendaUma prova escrita pressupõe leitura fluente; a idade mínima de 25 anos (3.9) acrescenta outro recorte

A comparação com outros desenhos ajuda a ver o que é próprio do modelo. Na democracia líquida o voto é delegado a terceiros; no plano, a habilitação é pessoal e intransferível. No sorteio de representantes o filtro é o acaso; no plano, é a prova. As demais objeções estão em críticas e objeções ao Delegado Eleitoral.