Pela Constituição, as leis da Venezuela são feitas por uma Assembleia Nacional de câmara única, eleita a cada cinco anos, e o eleitor pode revogar leis e mandatos por referendo. Na prática, a Freedom House classifica o país como não livre: o governo controla o órgão eleitoral, o tribunal supremo e a Assembleia, e a regra escrita não descreve quem de fato decide.

Ficha rápida

CampoVenezuela
Forma de governo e de EstadoNo papel, república presidencialista e "Estado federal descentralizado" (Constituição de 1999, arts. 4 e 6). Na prática, regime autoritário (Freedom House, EIU)
LegislativoAssembleia Nacional unicameral, 285 cadeiras na eleição de maio de 2025
Como os parlamentares são eleitosVoto "personalizado" com representação proporcional (art. 186), na prática sistema misto. Mandato de cinco anos, com reeleição (art. 192)
Quem propõe as leisExecutivo, deputados, outros poderes e 0,1% dos eleitores inscritos (art. 204)
Palavra final (veto, sanção, revisão judicial)Presidente pode devolver a lei em 10 dias; a Assembleia insiste por maioria dos presentes (art. 214). A Sala Constitucional do Tribunal Supremo de Justiça anula leis (art. 336)
Democracia diretaReferendos consultivo, revogatório de mandato, aprobatório e ab-rogatório (arts. 71 a 74). Nacionais em 1999, 2004, 2007, 2009 e 2023, entre outros
Voto obrigatórioNão (art. 63)
Reeleição do chefe de governoIndefinida desde a emenda de 2009; mandato de seis anos (art. 230)
Parlamentares por milhão de habitantes10,0 (285 para 28,5 milhões em 2025, Banco Mundial)

Como uma lei é aprovada

A regra escrita, nos artigos 202 a 218 da Constituição:

  1. O Executivo, uma comissão ou três deputados, outro poder do Estado ou um grupo de 0,1% dos eleitores apresenta o projeto.
  2. A Assembleia discute o projeto em dois turnos, em dias diferentes, com passagem por comissão entre eles (arts. 207 a 209).
  3. Aprovada, a lei vai ao presidente, que tem 10 dias para promulgar ou devolver com objeções.
  4. A Assembleia pode manter o texto por maioria dos presentes. Se o presidente alegar inconstitucionalidade, a Sala Constitucional decide.
  5. Se o presidente não promulgar, a direção da Assembleia promulga (art. 216).

A prática é outra. Na eleição legislativa de 25 de maio de 2025, boicotada pela maior parte da oposição, o órgão eleitoral declarou participação de 42,66% e deu 256 das 285 cadeiras à coalizão governista (AP). Sem freio entre os poderes, o passo 4 deixa de ser controle, como explica a página sobre separação dos poderes.

Participação direta do eleitor

Poucos países escreveram tanta democracia direta na Constituição. O artigo 72 permite revogar qualquer mandato eletivo depois da metade do prazo, com assinaturas de 20% dos eleitores. O uso real dependeu de quem controlava a apuração:

  • 2004: referendo revogatório contra Hugo Chávez, rejeitado com cerca de 59% de "não", observado pelo Centro Carter.
  • 2007: reforma constitucional proposta por Chávez, rejeitada com cerca de 51% de "não".
  • 2009: emenda que liberou a reeleição indefinida, aprovada com 54,87%.
  • 2023: referendo consultivo sobre o território do Essequibo, com 10,5 milhões de votos declarados pelo órgão eleitoral, número contestado pela imprensa que registrou seções vazias.

O ponto de ruptura foi a eleição presidencial de julho de 2024. O órgão eleitoral declarou Maduro vencedor sem publicar as atas por mesa, e o Centro Carter afirmou que a eleição "não pode ser considerada democrática" (Carter Center). Em 3 de janeiro de 2026, uma operação militar dos Estados Unidos capturou Maduro, e a Assembleia empossou a vice Delcy Rodríguez como presidente interina. Em setembro de 2026, Rodríguez prometeu eleições (US News). A Freedom House dá ao país 13 de 100 pontos, com zero em direitos políticos (Freedom House).

Comparado ao Brasil

PontoVenezuelaBrasil
Legislativo1 casa, 285 cadeiras2 casas, 594 parlamentares
Parlamentares por milhão10,02,8
Revogação de mandatoPrevista para todo cargo eletivoNão existe
Reeleição do presidenteIndefinida, mandatos de 6 anosUma reeleição seguida
Voto obrigatórioNãoSim, dos 18 aos 70 anos
Iniciativa popular de lei0,1% dos eleitores1% do eleitorado, em 5 estados

No modelo do Delegado Eleitoral

A Venezuela mostra que voto direto escrito na Constituição vale o que vale quem apura. O plano exige registro auditável de cada voto (item 5.1) e infraestrutura pública em solo nacional (item 5.2), mas não detalha quem fiscaliza a apuração, uma lacuna discutida em críticas e objeções. Comparação com outros arranjos em democracia semidireta e na página do Delegado Eleitoral.