O voto de rejeição é uma proposta do plano do Delegado Eleitoral para o primeiro turno de presidente, governador e prefeito, quando há 4 ou mais candidatos. Cada delegado, o eleitor habilitado, tem dois votos: um de aprovação, em quem quer, e um de rejeição, em quem não quer. Primeiro saem os 2 mais rejeitados; entre os que sobram, os 2 mais aprovados vão ao segundo turno, que continua como hoje.

Como é hoje

Hoje cada eleitor dá um voto só por cargo. Para presidente, a Constituição, no art. 77, considera eleito no primeiro turno quem obtiver a maioria absoluta dos votos, sem contar brancos e nulos. Se ninguém chega lá, há segundo turno entre os dois mais votados, e vence quem tiver a maioria dos votos válidos.

Como é hoje

Primeiro turno no primeiro domingo de outubro, segundo turno no último domingo de outubro, se houver (art. 77). A regra vale para governador (art. 28) e para prefeito só nos municípios com mais de 200 mil eleitores (art. 29, II). Nos demais municípios, vence o mais votado em turno único.

Dois parágrafos do art. 77 tratam de imprevistos. Se um candidato morre, desiste ou fica impedido antes do segundo turno, é chamado o de maior votação entre os que sobraram (§ 4º). Se dois candidatos empatam no segundo lugar, passa o mais idoso (§ 5º). É esse critério de idade que o plano aproveita para os empates da regra nova.

Deputados e vereadores seguem outra lógica, a do sistema proporcional, explicada em sistema eleitoral brasileiro e em quociente eleitoral.

O problema: votos espalhados e voto útil

Com muitos candidatos, os votos se dividem. Um nome com uma base fiel, mas pequena, pode chegar ao segundo turno com uma fatia modesta do eleitorado, mesmo que a maioria não o aceite de jeito nenhum. O voto único não mede essa recusa: ele só conta preferência.

A eleição de 1989 mostra a dispersão. Com 22 candidatos na disputa, Fernando Collor teve 30,47% dos votos válidos no primeiro turno e Lula ficou em segundo, com 17,18%, à frente de Leonel Brizola por cerca de 410 mil votos, segundo os números registrados em pronunciamento no Senado em 2019. A vaga no segundo turno foi decidida por menos de um ponto percentual entre dois candidatos que, juntos, não somavam 35% dos votos.

  • 22candidatos na disputa de 1989
  • 30,47%dos votos válidos para Fernando Collor no primeiro turno
  • 17,18%para Lula, em segundo
  • 410 milvotos, cerca de, à frente de Leonel Brizola

O eleitor conhece esse efeito e reage a ele com o chamado voto útil: em vez de votar em quem prefere, vota no "menos pior" com chance de vencer, para barrar quem rejeita. O plano descreve o problema exatamente assim e propõe separar as duas coisas: um voto diz quem o eleitor quer, o outro diz quem ele não quer.

Como funciona a regra nova, passo a passo

  1. Dois votos

    Cada delegado dá 1 voto de aprovação, no candidato que quer, e 1 voto de rejeição, no candidato que não quer.

  2. Os dois são opcionais

    Dá para usar só a aprovação, só a rejeição, os dois ou nenhum.

  3. Filtro da rejeição

    Na apuração, saem primeiro os 2 candidatos mais rejeitados.

  4. Escolha pela aprovação

    Entre os que sobram, vão ao segundo turno os 2 com mais votos de aprovação.

  5. Segundo turno como hoje

    Um voto só, e vence o mais votado.

Primeiro turno1 aprovação e 1 rejeição
Filtrosaem os 2 mais rejeitados
Aprovaçãopassam os 2 mais aprovados
Segundo turnovoto único, vence o mais votado
A apuração do primeiro turno com 4 ou mais candidatos, na regra do item 7.7 do plano.

Exemplo hipotético com 6 candidatos

Os números abaixo são inventados, só para ilustrar a conta. Uma eleição para prefeito com 6 candidatos, A a F, e 1.000 delegados votando. Nem todos usaram os dois votos.

CandidatoAprovaçõesRejeiçõesResultado
A280420Sai: mais rejeitado
B23090Vai ao segundo turno
C19060Vai ao segundo turno
D150310Sai: segundo mais rejeitado
E9050Fica de fora
F4030Fica de fora

A e D são os mais rejeitados e saem da disputa. Entre B, C, E e F, os dois com mais aprovações são B (230) e C (190). O segundo turno é B contra C.

Repare no candidato A: ele tem a maior aprovação da eleição, 280 votos. Se só a preferência contasse, como no voto único de hoje, A iria ao segundo turno em primeiro lugar. Na regra nova, os 420 delegados que não o aceitam de jeito nenhum o tiram antes da contagem da aprovação. É o efeito que o plano procura.

Exemplo hipotético com exatamente 4 candidatos

Com 4 candidatos, saem 2 pela rejeição e sobram exatamente 2. A aprovação não pesa na escolha dos finalistas: a rejeição sozinha define o segundo turno, como o próprio plano registra.

CandidatoAprovaçõesRejeiçõesResultado
A380400Sai
B300250Sai
C170150Vai ao segundo turno
D150100Vai ao segundo turno

Aqui os dois mais aprovados, A e B, ficam de fora, e o segundo turno é C contra D. A partir de 5 candidatos, a aprovação volta a decidir entre os que passaram pelo filtro.

Casos especiais

Voto pela metade

Os dois votos são opcionais. Quem só quer barrar alguém pode dar apenas a rejeição; quem só quer apoiar, apenas a aprovação.

Aprovar e rejeitar o mesmo nome

Os dois votos do delegado são anulados naquele cargo.

Empate

Vale o critério de hoje, o mais velho leva vantagem. No empate de rejeição, sai o mais novo; no empate de aprovação, passa o mais velho.

Sempre há segundo turno

Com 4 ou mais candidatos, o segundo turno acontece em qualquer município, de qualquer tamanho, mesmo que um candidato tenha mais da metade das aprovações.

Até 3 candidatos, nada muda

O primeiro turno segue as regras atuais.

Deputados e vereadores fora

A regra é só para cargos de uma vaga: presidente, governador e prefeito. Os parlamentares são eleitos pelos mais votados, em turno único.

Parentescos com outros sistemas

A ideia de medir algo além da preferência única não é nova. O sistema mais conhecido é o voto por aprovação (approval voting), em que o eleitor marca todos os candidatos que aceita, quantos quiser, e vence quem recebe mais marcações. Fargo, na Dakota do Norte (Estados Unidos), adotou o método por referendo em 2018 para eleger o prefeito e a comissão municipal, usou-o em 2020, 2022 e 2024, e o estado o proibiu por lei assinada em 16 de abril de 2025. St. Louis, no Missouri, aprovou em 2020 uma primária aberta com voto por aprovação seguida de disputa entre os dois primeiros, um formato parecido com o de dois turnos; a cidade manteve o sistema mesmo depois de o estado proibir o voto ranqueado em 2024.

A regra do plano, porém, é diferente. O "voto de aprovação" do plano vale para um candidato só, como o voto de hoje, e não para vários. A novidade está no voto de rejeição usado como filtro antes da contagem. Nas fontes consultadas para esta página, não encontramos uma eleição nacional que use exatamente essa combinação, e o plano também não cita precedente.

Críticas possíveis

Incentivo à campanha negativa

Se a rejeição elimina, atacar o adversário passa a render tanto quanto conquistar apoio. Um candidato pode investir em aumentar a rejeição dos rivais em vez de defender o próprio programa. O plano não trata esse efeito nem propõe uma regra para contê-lo.

Com 4 candidatos, a aprovação não conta

Como mostra o segundo exemplo, com exatamente 4 candidatos os finalistas saem só da rejeição, e os dois mais aprovados podem ficar de fora. O plano reconhece a mecânica, mas não discute se isso é desejável.

O candidato que divide opiniões

Um nome muito apoiado por uns e muito rejeitado por outros tende a sair no filtro, como o candidato A do primeiro exemplo. Para quem defende a regra, é exatamente o objetivo. Para quem critica, o filtro favorece candidatos pouco conhecidos ou de posição morna, que ninguém se dá ao trabalho de rejeitar. O plano não responde a essa objeção.

Segundo turno obrigatório

Com 4 ou mais candidatos, há segundo turno em qualquer município, até nos pequenos, onde hoje a eleição de prefeito se resolve em turno único. O plano não estima o custo dessa mudança. Outras objeções ao modelo estão em críticas e objeções.

No modelo do Delegado Eleitoral

O voto de rejeição faz parte do item 7.7 do plano, o mesmo que acaba com a proporcionalidade e torna toda eleição majoritária. No modelo de democracia direta do Delegado Eleitoral, só os delegados votam, tanto nos candidatos quanto nas leis (item 7.8), e por isso a regra fala em delegados, não em eleitores.

Regra do primeiro turno (item 7.7 do plano)

Vale para as eleições de presidente da República, governador e prefeito, sempre que houver 4 ou mais candidatos.

  • Cada delegado tem dois votos: 1 voto de aprovação, no candidato que quer, e 1 voto de rejeição, no candidato que não quer.
  • Os dois votos são opcionais. Quem aprova e rejeita o mesmo candidato tem os dois votos anulados naquele cargo.
  • Apuração: saem os 2 candidatos mais rejeitados; entre os que sobram, vão ao segundo turno os 2 com mais votos de aprovação.
  • Sempre há segundo turno, em qualquer município, mesmo que um candidato tenha mais da metade das aprovações.
  • Empate: no de rejeição, sai o mais novo; no de aprovação, passa o mais velho.
  • O segundo turno é como hoje: um voto só, e vence o mais votado. Com até 3 candidatos, nada muda.

Com 3 candidatos ou menos, valem as regras atuais por inteiro, inclusive o turno único para prefeito nos municípios com até 200 mil eleitores. O plano não detalha o que acontece se um finalista morrer ou desistir antes do segundo turno. Também não diz como os votos de rejeição seriam divulgados. Os mandatos dos eleitos são de oito anos, sem reeleição (item 7.6), tema de fim da reeleição. A proposta completa está em Delegado Eleitoral: como funciona o modelo.